
Thiago José Bandeira Santos; Rachel Camilly Soares de Souza
Rev. Carta Inter., Belo Horizonte, v. 20, n. 3, e1586, 2025
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tecnológica, permanece essencialmente uma atividade humana, marcada por
incertezas estruturais, ambiguidades interpretativas e conflitos de interesse.
Freedman, ao conceber a estratégia como uma construção narrativa, argumenta que
os estrategistas atuam em contextos de profunda instabilidade, sendo compelidos
a projetar o futuro a partir de dados fragmentários, em ambientes permeados por
pressões políticas, institucionais e cognitivas (Freedman 2013). Nessa direção,
a estratégia não é um produto de cálculo técnico, mas um processo contingente
de formulação de sentido frente à complexidade do real. Para Gray (1999), a
guerra não pode ser compreendida como uma operação mecânica ou como uma
simples aplicação de técnicas gerenciais, mas como uma prática historicamente
informada, sujeita a paixões, erros de julgamento, choques de percepção e jogos
de poder. Quando considerados em conjunto, Freedman e Gray oferecem uma
crítica contundente à racionalidade instrumental, reafirmando a centralidade da
incerteza, da interpretação e da contingência como fundamentos constitutivos
da guerra e da estratégia em qualquer época.
Sob a ótica dos Estudos de Ciência e Tecnologia, Lucy Suchman (2007) oferece
uma das críticas mais sofisticadas a essa visão tecnodeterminista ao argumentar
que sistemas de guerra autônomos não são instrumentos neutros, mas artefatos
sociotécnicos inscritos em redes de valores, protocolos institucionais e práticas
culturais. Sua análise da guerra de drones revela que a promessa de “precisão
cirúrgica” é uma construção retórica, em grande medida, pois os sistemas de
vigilância e ataque são mediados por operadores humanos, por processos de
categorização que podem falhar e por interpretações situadas de dados sensoriais.
Tal perspectiva desloca o debate de uma visão puramente técnica para uma
análise sociopolítica, demonstrando que cada decisão algorítmica está embutida
em um ecossistema de atores, normas e relações de poder. Essa contribuição
é crucial para repensar a fricção clausewitziana no século XXI em que o erro
não é apenas um resíduo a ser eliminado, mas um produto da interação entre
humanos, máquinas e instituições.
Aplicada ao campo militar, essa abordagem expõe que conceitos como
“consciência situacional”, isto é capacidade de observar compreendendo elementos
em um ambiente operacional e prever seu estado futuro para tomar decisões, não
são meramente técnicos, mas também políticos, pois envolvem decisões sobre o que
medir, quais ameaças priorizar e quais riscos aceitar (Latour 1991). Atualmente,
essa dinâmica reconfigura a fricção clausewitziana se manifestando em disputas
sobre responsabilidade legal e governança algorítmica. Nesse contexto, outro