Georgia Paula Martins Faust
Rev. Carta Inter., Belo Horizonte, v. 20, n. 3, e1595, 2025
1-25
Remessas invisíveis: a economia
oculta das mulheres migrantes
1
Invisible remittances: the hidden
economy of migrant women
Remesas invisibles: la economía oculta
de las mujeres migrantes
DOI: 10.21530/ci.v20n3.2025.1595
Georgia Paula Martins Faust
2
Resumo
Este artigo analisa como o trabalho de cuidado e emocional
realizado por mulheres migrantes constitui uma ‘remessa invisível’
que sustenta a economia global, mas é excluída das estatísticas e
políticas econômicas. Com base na economia política feminista,
argumenta-se que o produtivismo e a desvalorização do cuidado
sustentam a precarização feminina, especialmente nas cadeias
globais de cuidado. Para tal, apresentam-se dados estimativos
sobre o peso das mulheres nas remessas monetárias internacionais
e discute-se a invisibilidade das remessas afetivas. Conclui-se
pela necessidade de repensar conceitos econômicos e adotar
metodologias que reconheçam o trabalho reprodutivo — de cuidado
e emocional — como parte essencial das economias.
Palavras-chave: Trabalho Doméstico, Remessas, Migração Feminina,
Economia Política Feminista, Cuidado.
1 A autora agradece ao Programa de Pós-Graduação em Relações Internacionais
da Universidade Federal de Santa Catarina, na figura da professora Mónica
Salomón e ao Núcleo de Estudos de Gênero na Política Externa Internacional
pelo suporte ao desenvolvimento desta pesquisa. À CAPES pelo financiamento.
2 Doutoranda em Ciências Humanas pelo Programa de Pós-Graduação
Interdisciplinar em Ciências Humanas — Universidade Federal de Santa Catarina
(PPGICH/UFSC), Florianópolis — SC, Brasil. (geo.faust@gmail.com). ORCID:
https://orcid.org/0000-0001-5622-7413.
Artigo submetido em 30/06/2025 e aprovado em 21/12/2025.
ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE
RELAÇÕES INTERNACIONAIS
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Este é um artigo
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ISSN 2526-9038
Remessas invisíveis: a economia oculta das mulheres migrantes
Rev. Carta Inter., Belo Horizonte, v. 20, n. 3, e1595, 2025
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Abstract
This article examines how care and emotional work by migrant women constitutes an
‘invisible remittance’ sustaining the global economy, while being excluded from official
statistics and policies. Using feminist political economy, it argues that productivism and the
devaluation of care underpin women’s precarization, especially within global care chains.
For this, it presents estimated data on women’s role in international monetary remittances
and discusses the invisibility of affective remittances. The article concludes that rethinking
economic concepts and adopting methodologies that recognize care as essential to economies
are needed, addressing gendered inequalities while valuing reproductive work — care an
emotional — sustaining global structures.
Keywords: Domestic Work, Remittances, Female Migration, Feminist Political Economy,
Care.
Resumen
Este artículo examina cómo el trabajo de cuidados y emocional realizado por mujeres
migrantes constituye una ‘remesa invisible’ que sostiene la economía global, aunque es
excluida de estadísticas y políticas económicas. Desde la economía feminista, se argumenta
que el productivismo y la desvalorización del cuidado sostienen la precarización femenina,
especialmente en las cadenas globales de cuidado. Para esto, se presentan datos estimativos
sobre la participación de las mujeres en las remesas monetarias internacionales y se discute
la invisibilidad de las remesas afectivas. Se concluye sobre la necesidad de repensar
conceptos económicos y adoptar metodologías que reconozcan el trabajo reproductivo —
de cuidado y emocional — como parte esencial de las economías.
Palabras clave: Trabajo Doméstico, Remesas, Migración Femenina, Economía Política
Feminista, Cuidados.
1 Introdução
Nas últimas décadas, a intensificação de fluxos migratórios internacionais —
especialmente aqueles vinculados ao trabalho reprodutivo em países centrais
— tem sido marcada pela feminização da migração (Piper 2006, Enloe 2014) .
Embora mulheres sempre tenham migrado, o que caracteriza esse processo é a
visibilidade crescente da migração laboral feminina no setor de cuidados em um
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contexto de globalização neoliberal, retração dos sistemas públicos de bem-estar
e aprofundamento da divisão sexual e racial do trabalho de cuidado (Dowling
2021, Samman, Presler-Marshall e Jones 2016).
O trabalho de cuidado, também chamado de trabalho reprodutivo, envolve
atividades que sustentam a vida cotidiana — como cozinhar, limpar, cuidar
de crianças, idosos e pessoas com deficiência — e que são historicamente
atribuídas às mulheres. Trata-se de um trabalho essencial, mas frequentemente
não remunerado e não reconhecido como produtivo pelas métricas econômicas
formais. A migração contemporânea voltada a esse tipo de trabalho tem sido
analisada à luz do conceito de cadeias globais de cuidado (Hoschchild, 2000),
evidenciando como a precarização do cuidado migra junto com as trabalhadoras.
Essas cadeias são sustentadas por uma lógica de hierarquização global do trabalho
reprodutivo. Mulheres migrantes do Sul Global assumem funções de cuidado
em países do Norte, ocupando postos em contextos domésticos, de saúde e
assistência social. Em contrapartida, suas próprias famílias passam a ser cuidadas
por outras mulheres — normalmente mais velhas, mais pobres ou em posições
sociais mais vulneráveis (González e Silva 2025). Trata-se de um fenômeno de
transferência global de cuidados que se estrutura a partir de intersecções entre
gênero, raça, classe e nacionalidade, e que opera como um subsídio invisível à
economia global.
Com efeito, as estatísticas internacionais sobre migração e remessas oferecem
uma imagem incompleta das contribuições econômicas das mulheres migrantes.
Embora haja dados consistentes sobre os fluxos financeiros enviados entre
países e sobre o perfil demográfico das populações migrantes, a ausência de
desagregação por gênero nas estatísticas de remessas monetárias e a exclusão
de formas não monetárias de contribuição revelam uma lacuna significativa
na forma como a economia transnacional é medida. Diante disso, este artigo
defende que o trabalho de cuidado realizado por mulheres migrantes constitui
uma forma de remessa invisível: essencial à reprodução social e ao funcionamento
da economia global, mas sistematicamente excluída dos indicadores oficiais.
Argumenta-se que a lógica produtivista e a desvalorização histórica do trabalho
reprodutivo resultam na invisibilidade estatística dessas remessas, contribuindo
para a precarização das trabalhadoras e o apagamento de suas contribuições
nos relatórios institucionais.
A aparente tensão entre a caracterização do trabalho de cuidados como
uma remessa invisível e sua eventual mensuração por indicadores econômicos
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expressa uma contradição estrutural do capitalismo contemporâneo. Por um
lado, a noção de invisibilidade do trabalho de cuidado não designa a ausência
absoluta de registros estatísticos, mas a impossibilidade de identificar esse trabalho
enquanto categoria específica nas métricas disponíveis. Assim, ainda que existam
indicadores agregados de remessas associadas à migração laboral, tais dados não
permitem isolar, quantificar ou reconhecer o trabalho de cuidado transnacional
enquanto tal. Por outro lado, essa invisibilidade não se restringe às dimensões
monetárias do trabalho, mas abrange também o campo do afetivo e do emocional.
Os indicadores econômicos internacionais continuam a reconhecer apenas as
transferências financeiras formais, desconsiderando o trabalho emocional que
acompanha e sustenta o cuidado transnacional. Essa lacuna estatística revela
um problema conceitual mais profundo: ao separar o que é mensurável do que é
relacional, os sistemas de mensuração econômica reproduzem a hierarquia entre
produção e reprodução, trabalho e afeto. Assim, o foco nas remessas monetárias
evidencia a exclusão estrutural do trabalho emocional e relacional das métricas
econômicas globais.
Para capturar essa dupla dimensão da invisibilização do trabalho reprodutivo,
este artigo separa esse conceito em dois. O termo ‘trabalho emocional’, formulado
por Hochschild (1983), refere-se à gestão das próprias emoções no contexto
laboral, especialmente em atividades que exigem a produção de estados afetivos
em outras pessoas — como empatia, acolhimento ou serenidade — para fins
produtivos. Já o ‘trabalho de cuidado’ abrange um conjunto mais amplo de práticas
voltadas à manutenção da vida e do bem-estar, combinando dimensões físicas,
relacionais e afetivas. Embora distintos, esses dois tipos de trabalho se sobrepõem
nas trajetórias das mulheres migrantes, cujo labor envolve simultaneamente
tarefas materiais (alimentar, limpar, cuidar) e exigências emocionais (demonstrar
paciência, afeto e estabilidade). A contribuição deste artigo reside justamente
em propor a noção de remessas invisíveis como categoria que integra essas
dimensões — reconhecendo que, nas cadeias globais de cuidado, as mulheres
não exportam apenas dinheiro ou serviços, mas também energia emocional e
relacional indispensável à reprodução social transnacional.
A análise envolve identificar e categorizar diferentes formas de remessas —
financeiras, afetivas e relacionais — e discutir os limites institucionais para o
seu reconhecimento, com foco nos fluxos migratórios do Sul Global, tanto para
o Norte Global quanto entre países em desenvolvimento (migração Sul-Sul). Para
tal, baseia-se na economia política feminista crítica (Folbre 2001, Elson 1979, Rai
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e Hoskyns 2016) 3 e nos estudos sobre migração (Bryceson 2022, Hochschild 2000,
González e Silva 2025, Lam e Yeoh 2018), assim como na análise de documentos
institucionais (ONU Mulheres, Banco Mundial, OIT), estudos empíricos e dados
agregados produzidos majoritariamente a partir de 2010. O artigo se estrutura
em três seções principais. A primeira discute o conceito de trabalho de cuidado
e sua exclusão das métricas econômicas tradicionais. A segunda examina as
cadeias globais de cuidado e a relação entre migração e reprodução social. Por
fim, analisa-se o conceito de remessas invisíveis, propondo uma ampliação crítica
das formas de reconhecimento econômico do cuidado transnacional.
2 Trabalho de cuidado e sua invisibilização na economia global
A invisibilidade do trabalho reprodutivo decorre de dois paradoxos
fundamentais. O primeiro é que o cuidado só é reconhecido como produtivo
quando há remuneração, ainda que esse reconhecimento raramente se converta
em valorização simbólica ou material. O segundo é que, quando realizado sem
pagamento, o cuidado é desclassificado como trabalho, embora seja indispensável
à própria existência do trabalho assalariado. Em outras palavras, o cuidado é
um trabalho ‘anterior’ ao trabalho produtivo: ele torna possível todas as demais
atividades econômicas, mas permanece fora das contas nacionais. Esses paradoxos
explicam por que o trabalho reprodutivo — de cuidado e emocional — permanece
invisível para as estatísticas políticas e econômicas.
A compreensão contemporânea de que o trabalho reprodutivo envolve valor
invisibilizado encontra ecos na formulação de Hochschild (1983) sobre o ‘trabalho
emocional’. Embora Hochschild se refira a contextos de serviços formais, sua
análise ilumina a dimensão afetiva e relacional do cuidado. Essa ideia antecipou
debates contemporâneos sobre o valor afetivo gerado no trabalho de cuidado,
especialmente nas cadeias globais de cuidado descritas por Hochschild (2000), em
que mulheres migrantes exportam afeto, escuta e suporte como parte essencial
da sua atividade laboral — embora raramente reconhecida como tal.
A economia política feminista tem se destacado por desestabilizar os
pressupostos da teoria econômica tradicional, sobretudo ao questionar o
3 Particularmente as produções que articulam o trabalho de cuidado à divisão sexual e internacional do trabalho,
à financeirização da reprodução social e à lógica estrutural do capitalismo contemporâneo.
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produtivismo que sustenta as métricas centrais do capitalismo, como o Produto
Interno Bruto (PIB). Uma de suas críticas mais contundentes recai sobre a exclusão
do trabalho de reprodução dos sistemas de contas nacionais (Carrasco 2012;
Vieceli 2020; Melo, Considera e Sabato 2007). O Sistema de Contas Nacionais
da ONU, por exemplo, estabelece uma ‘fronteira de produção’ que define o que
é contabilizado como trabalho econômico. Atividades como cozinhar, limpar e
cuidar de familiares, quando realizadas sem remuneração no âmbito doméstico,
permanecem invisíveis nas estatísticas econômicas (Rai e Hoskyns 2016). Essa
exclusão ajuda a compreender o pano de fundo estrutural da desvalorização do
cuidado.
O foco deste artigo recai sobre outro aspecto desse problema: a forma como
mesmo o trabalho de cuidado remunerado, exercido por mulheres migrantes, é
subvalorizado, precário e invisibilizado nas estatísticas e políticas institucionais.
Ainda que essas trabalhadoras sejam contratadas — sobretudo nos fluxos Sul-Norte
— o cuidado que prestam continua sendo considerado ‘natural’ e ‘improdutivo’
em termos simbólicos e contáveis. A desvalorização, portanto, não depende da
ausência de remuneração, mas da posição de gênero, raça e origem social da
trabalhadora. Assim, o artigo concentra-se na análise dessas formas remuneradas
e invisíveis de cuidado transnacional.
Além da exclusão contábil, há o fenômeno da ‘depleção’ (Elson 1979),
aprofundado por Rai e Hoskyns (2016), que evidencia o desgaste físico, emocional
e psíquico provocado pela realização contínua e não recompensada ou reconhecida
do trabalho de cuidado. A depleção manifesta-se quando a quantidade de energia
física, recursos financeiros e apoio emocional recebidos é inferior ao que é
despendido na realização desse trabalho. Trata-se de um ciclo de exploração
invisibilizado.
A crítica feminista à economia também denuncia a forma como os corpos
das mulheres — sobretudo as racializadas — são mobilizados como força de
trabalho ‘natural’ para o cuidado. Essa ‘naturalização’ da vocação feminina para
cuidar despolitiza a divisão sexual do trabalho, removendo-a da arena de disputa
e inserindo-a no terreno da moralidade e da tradição. Como destacam Elias e
Ferguson (2010), essa construção simbólica sustenta a concentração de mulheres
em setores precários como a manufatura leve e o turismo, onde seus corpos
são simultaneamente explorados economicamente e domesticados socialmente.
Griffin (2016) amplia essa crítica ao tratar da ‘cooptação neoliberal do
feminismo’, alertando para os riscos do discurso do empoderamento via mercado,
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que ignora as hierarquias estruturais e promove uma imagem falsa de autonomia.
A inserção de mulheres no mercado de trabalho, quando dissociada da valorização
do trabalho reprodutivo e do enfrentamento das desigualdades estruturais, perpetua
a lógica da jornada dupla e reforça a ideia de que a mulher ‘moderna’ é aquela
capaz de conciliar tudo — mesmo à custa da própria saúde e tempo (Rottenberg
2018; McRobbie 2009).
Em suma, as abordagens da economia política feminista crítica desvelam o
truque contábil e ideológico que desqualifica o trabalho reprodutivo, apesar de
sua centralidade. Tal invisibilidade não é inócua: ela define prioridades políticas,
formas de alocação de orçamento e até os limites do que se entende por ‘economia’.
Como afirma Waring (2012, 77), “se o trabalho das mulheres como produtoras
e reprodutoras é invisível como contribuição nas contas nacionais, mulheres
são invisíveis na distribuição de benefícios”4. Desfazer essa invisibilidade é,
portanto, um passo fundamental para pensar uma nova economia global baseada
na justiça de gênero (Marçal 2017).
Compreender o trabalho reprodutivo como parte invisível, mas essencial, das
economias é o primeiro passo para reconhecer sua centralidade na reprodução social
global. No contexto migratório, essa lógica se complexifica, pois a exportação de
cuidado por mulheres assume dimensões que desafiam os limites convencionais
do conceito de remessas. A seção seguinte examina como essas práticas se
manifestam nas cadeias globais de cuidado e nas dinâmicas migratórias femininas.
3 Cadeias globais de cuidado e migração feminina
As cadeias globais de cuidado referem-se à redistribuição transnacional do
trabalho reprodutivo, especialmente a partir da migração de mulheres do Sul
Global para países mais ricos, onde assumem funções relacionadas ao cuidado
infantil, doméstico e de idosos. Mais do que um simples deslocamento geográfico
desse trabalho, essas cadeias representam dinâmicas que conectam famílias,
comunidades e economias através de redes transnacionais. O conceito permite
articular a divisão sexual do trabalho, os fluxos migratórios e a economia política
do cuidado. Inicialmente formulado por Hochschild (2000), que o descreveu como
4 No original: If women’s work as producers and reproducers is invisible as a contribution in the national
accounts, women are invisible in the distribution of benefits.
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uma cadeia de transferências afetivas e laborais entre mulheres, foi posteriormente
aprofundado por Parrenas (2015) e Yeates (2005) para evidenciar suas bases
estruturais, econômicas e políticas.
Hochschild (2000) vai além da descrição estrutural das cadeias de cuidado
ao propor que essas redes transnacionais produzem um tipo específico de valor
— o que ela chama de ‘mais-valia emocional’. Para a autora, quando uma
mulher migrante cuida dos filhos de uma família em um país rico, ela transfere
cuidado, atenção e afeto que poderiam estar voltados para sua própria família.
Essa ‘exportação de emoção’ traduz-se em lucro emocional para os países
receptores e depleção afetiva para os países emissores — um desequilíbrio
raramente reconhecido nas análises econômicas tradicionais. Ao destacar esse
excedente emocional, Hochschild (2000) revela que o trabalho de cuidado não
é apenas físico ou econômico, mas também afetivo, relacional e profundamente
assimétrico. Já Dowling (2021) mostra que a racionalização do cuidado sob
lógicas de produtividade e eficiência compromete sua própria realização. A
tentativa de padronizar o cuidado — tratando-o como tarefa replicável — esvazia
seu conteúdo afetivo e ético, impondo às trabalhadoras migrantes não apenas o
ônus físico, mas também o desgaste subjetivo de um trabalho que exige entrega
emocional contínua sem reconhecimento simbólico ou material.
A ‘fuga de cuidados’ dos países periféricos evidencia o entrelaçamento
entre o patriarcado, o capitalismo e o legado colonial. A migração das mulheres
responde, muitas vezes, à precarização das condições de vida em seus países
de origem, fruto de reformas neoliberais que desmontaram políticas públicas,
especialmente nas áreas de saúde e educação (Mordente 2023). Como observam
Pettman (2009) e Assis (2007), a divisão internacional do trabalho reprodutivo
se intensificou à medida que os Estados centrais terceirizaram o cuidado para
mulheres estrangeiras, enquanto os Estados periféricos passaram a depender das
remessas dessas mesmas mulheres para equilibrar suas economias.
Como argumenta Dowling (2021), essa situação não é apenas resultado
da escassez de serviços públicos, mas de um projeto político mais amplo de
mercantilização e austeridade, que externaliza os custos do cuidado para as
famílias e, principalmente, para as mulheres. A privatização do cuidado e sua
conversão em mercadoria fragmentam o acesso, intensificam desigualdades e
tornam invisível o trabalho emocional e relacional necessário à manutenção da vida.
Esse apagamento não é acidental: ele sustenta a lógica de um sistema econômico
que transfere responsabilidades sociais para os indivíduos, enquanto desinveste
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em infraestruturas públicas. O cuidado, por ser realizado majoritariamente
por mulheres, muitas vezes no espaço doméstico e fora do mercado formal,
é tratado como uma extensão natural da feminilidade e não como atividade
econômica. Manter essa exclusão serve a propósitos políticos e econômicos: ao
não reconhecer o cuidado como trabalho produtivo, o Estado e o mercado se
eximem da responsabilidade de remunerá-lo ou provê-lo por meio de políticas
públicas, transferindo silenciosamente os custos da reprodução social para os
ombros das mulheres — especialmente migrantes, racializadas e empobrecidas
(Fraser, 2016; Rai, Hoskyns e Thomas, 2013) .
Além dessas contribuições monetárias, é necessário destacar os aspectos
relacionais e afetivos do cuidado transnacional. O conceito de trabalho emocional,
formulado por Hochschild (1983), permite compreender as cadeias globais de
cuidado para além da materialidade do trabalho de cuidado. Ao evidenciar que
a gestão das emoções constitui uma parte essencial do processo produtivo —
especialmente em ocupações de cuidado —, a autora revela como o afeto se
torna também uma mercadoria invisível. Nas cadeias internacionais de cuidado,
esse componente emocional é mobilizado como parte da força de trabalho
exportada por mulheres migrantes, mas raramente reconhecido como produtivo ou
remunerável. Essa perspectiva ajuda a integrar a dimensão subjetiva à econômica:
as trabalhadoras são pagas por suas tarefas físicas, mas sua capacidade afetiva
permanece não mensurada, invisível para os indicadores econômicos que
o interpretam como não-produtivo mesmo sendo vital para o bem-estar de
comunidades inteiras (Pettman 2009). A invisibilidade do trabalho emocional,
portanto, não substitui, mas aprofunda a invisibilidade do cuidado, reforçando a
dissociação entre valor e afeto que estrutura a economia global contemporânea.
A literatura tende a concentrar-se na migração Sul-Norte, mas dados do
Banco Mundial (Ratha e Shaw 2007, Ratha, Chandra, et al. 2023) revelam que
quase metade das pessoas migrantes oriundas de países em desenvolvimento vive
em outros países em desenvolvimento. Essa migração Sul-Sul, frequentemente
invisível nas grandes narrativas geopolíticas, é marcada por condições ainda
mais precárias de trabalho e acesso a direitos. No entanto, as remessas Sul-Sul
enfrentam custos mais altos de transferência, canais mais informais e menor
registro estatístico, o que amplia sua invisibilidade. Ainda assim, mesmo pequenas
quantidades enviadas por essas mulheres migrantes geram impactos significativos
no bem-estar das famílias e na reprodução social dos territórios de origem. Além
dos casos latino-americanos e asiáticos frequentemente abordados, experiências
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africanas também evidenciam a complexidade da migração feminina. Um estudo
recente sobre a Nigéria (Rufai, et al. 2019) mostra que, embora os homens
migrem majoritariamente por motivos laborais, as mulheres o fazem muitas
vezes por arranjos conjugais, sem que isso as exclua da expectativa de sustentar
financeiramente suas famílias de origem. Os autores observam que a mobilidade
laboral reduz a pobreza nas famílias, mas que os efeitos são desiguais por gênero.
A pesquisa confirma que a pobreza das famílias de origem é um fator estrutural
do deslocamento, e que mesmo pequenas remessas, sobretudo em trajetórias
Sul-Sul, têm efeitos substanciais sobre o bem-estar coletivo.
Portanto, mais do que um ato de afeto privado, o cuidado realizado por
mulheres migrantes representa uma força de trabalho transnacional que viabiliza
o funcionamento cotidiano de lares, mercados e instituições — tanto nos
países de destino quanto nos de origem. Trata-se de uma engrenagem invisível,
mas indispensável, que permite a reprodução social de milhões de pessoas,
especialmente nas classes médias dos países centrais, ao mesmo tempo em
que sustenta economicamente famílias e comunidades nos países periféricos.
A lógica que mantém esse trabalho à margem do reconhecimento institucional
está ancorada em uma racionalidade econômica que dissocia a produção da
reprodução, e valor de afeto. Essa racionalidade, herdada do pensamento econômico
liberal-industrial, naturaliza a divisão sexual do trabalho, relegando o cuidado ao
âmbito da moralidade privada, da vocação feminina ou da solidariedade familiar,
e o exclui sistematicamente dos modelos de contabilidade e análise econômica
(Folbre 2001) (Vieceli 2020). Como destacam Waring (2004) e Fraser (2016),
essa exclusão não é neutra: ela constitui uma estratégia política que desloca o
custo da reprodução social para os ombros das mulheres — em especial aquelas
marcadas por desigualdades de raça, classe, nacionalidade e status migratório.
A luta pelo reconhecimento do cuidado como trabalho produtivo é também
uma disputa epistemológica, que desafia os fundamentos do pensamento econômico
dominante e reivindica a construção de novas categorias, métricas e paradigmas.
Valorizar o trabalho reprodutivo implica reconfigurar os critérios de produtividade
e desenvolvimento. É nesse sentido que a proposta de considerar o trabalho
transnacional de cuidado e emocional como forma de remessa não apenas amplia
o conceito tradicional de remessa, mas também atua como uma nova intervenção
crítica no campo da economia política internacional.
Assim, compreender as cadeias globais de cuidado implica também reconhecer
que o cuidado migrante não se limita a uma dimensão física ou afetiva, mas opera
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dentro de uma economia emocional global. É a partir dessa articulação entre
cuidado e emoção que se delineia a proposta central deste artigo: compreender
as remessas invisíveis como a forma pela qual o trabalho emocional e o trabalho
de cuidado se materializam e circulam transnacionalmente.
4 Remessa como extensão transnacional do cuidado
Nas abordagens econômicas tradicionais, o conceito de ‘remessa’ é associado
quase exclusivamente ao envio de recursos financeiros por migrantes para seus
países de origem (Ratha 2013 , World Bank 2016, UN DESA 2019 ). Essa visão
estreita reconhece apenas transações monetárias formais como indicadores
de valor econômico. Assim, não contempla outras formas de contribuição
igualmente essenciais, sobretudo aquelas oferecidas por mulheres migrantes: o
cuidado, o afeto e o suporte emocional destinados a suas famílias e comunidades.
Com isso, o debate sobre remessas negligencia justamente o principal serviço
exportado por milhões de mulheres no Sul Global. Tal exclusão não é acidental,
mas parte de um processo histórico de desvalorização do trabalho feminino,
racializado e informal, que opera fora dos parâmetros formais de produtividade e
permanece, por isso, invisível aos sistemas de contabilidade nacional (Folbre 2001,
Waring 2004).
O reconhecimento do trabalho doméstico como remessa desafia as métricas
econômicas contemporâneas. Como afirmam Rai e Hoskyns (2016), a exclusão
do trabalho reprodutivo dos sistemas de contas nacionais distorce as análises de
produtividade e desenvolvimento. Embora instrumentos como as ‘contas satélites
do cuidado’ (ONU 1995) e os ‘estudos de uso do tempo’ possam aprimorar a
mensuração do trabalho reprodutivo realizado no contexto doméstico nacional,
ainda são limitados quando se trata de capturar a contribuição transnacional
das mulheres migrantes, especialmente no que tange às remessas afetivas,
relacionais e de cuidado.
A UN Women (2020c) aponta que, em países como Nepal, Bangladesh, Filipinas
e Honduras, as remessas enviadas por mulheres migrantes substituem diretamente
sistemas de proteção social colapsados, sendo utilizadas majoritariamente em
alimentação, saúde, educação e moradia. Essas remessas partem, principalmente,
de fluxos migratórios Sul-Norte (como Filipinas-Emirados Árabes, Honduras-
Estados Unidos, Nepal-Reino Unido), mas também incluem importantes fluxos
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Sul-Sul, como Bangladesh para Malásia e Etiópia para Arábia Saudita, nos quais
as mulheres contribuem desproporcionalmente para o sustento de suas famílias,
mesmo em contextos de informalidade ou baixa remuneração. Isso reforça a
ideia de que o trabalho de cuidado atravessa fronteiras, assumindo funções que
deveriam ser garantidas por políticas públicas. Ao suprir a ausência do Estado,
as mulheres são duplamente responsabilizadas: pelo cuidado presencial que
deixam de exercer e pelo financeiro que passam a garantir — quase sempre em
condições precárias e sob intenso desgaste físico e emocional.
Como argumenta Nadasen (2023), o cuidado não é apenas um pré-requisito
para o funcionamento do sistema capitalista, mas tornou-se uma de suas fronteiras
centrais de acumulação. A economia política contemporânea extrai valor da
reprodução social — do corpo, da vida e da interdependência — o que explica por
que, mesmo sendo invisibilizado nas estatísticas oficiais, o trabalho de cuidado
feminino, migrante e racializado sustenta silenciosamente a rentabilidade global.
Contudo, reconhecer o cuidado como remessa também exige cautela analítica.
O conceito pode correr o risco de romantizar o cuidado ao abstraí-lo de suas
condições materiais, além de não captar adequadamente as variações contextuais
do cuidado transnacional em diferentes regiões. Além disso, a mensuração
empírica desse tipo de remessa, especialmente em termos de valor econômico
e impacto social, apresenta desafios metodológicos relevantes que devem ser
reconhecidos para evitar generalizações apressadas.
4.1 Remessas invisíveis e o trabalho de cuidado remunerado
Embora o envio de remessas por migrantes represente uma fonte vital de
sustento para milhões de famílias no Sul Global, as estatísticas econômicas
internacionais continuam a apresentar sérias limitações quanto à sua desagregação
por gênero e tipo de ocupação. Essa ausência revela um apagamento sistêmico do
trabalho de cuidado e da contribuição das mulheres migrantes para a economia
global, perpetuando a invisibilidade já denunciada por teóricas da economia
feminista (Rai e Hoskyns 2016; Waring 2004).
Instituições como o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional
fornecem dados agregados sobre remessas transnacionais, mas não identificam
os setores produtivos ou tipos de trabalho que as geram. Assim, não é possível
determinar, a partir das fontes oficiais, quanto das remessas decorre do trabalho
doméstico e de cuidado, majoritariamente realizado por mulheres. Ainda que
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se conheça a composição de gênero das populações migrantes, a relação entre
remessas e setores produtivos permanece um ponto cego nas políticas econômicas
globais (ILO [OIT] 2015)
Além disso, como observam Jha, Sugiyarto e Vargas-Silva (2010) ao analisarem
um estudo do Asian Development Bank, uma parcela significativa do crescimento
das remessas registrado nas últimas décadas não se deveu a um aumento real
do volume enviado, mas à melhoria dos mecanismos de registro e à maior
formalização dos canais de envio. O estudo destaca que, mesmo durante crises
econômicas globais, como a de 1997 na Ásia e a de 2008, os fluxos de remessas
permaneceram surpreendentemente resilientes — o que reforça sua natureza
relacional e vinculada aos laços familiares, e não apenas ao desempenho dos
mercados. Contudo, tais análises permanecem centradas em valores monetários
e ignoram as transferências informais, em espécie ou afetivas, realizadas por
migrantes — sobretudo mulheres — que sustentam suas famílias por meio de
cuidado, provisão emocional e trabalho não remunerado. Isso revela não apenas
uma lacuna teórica nas estatísticas, mas um apagamento político e estrutural
que silencia o papel das mulheres na econômica transnacional.
A própria UN Women (2017; 2020b) reconhece que não existem dados
estatísticos desagregados por sexo do remetente nas bases globais de remessas.
Essa ausência, segundo a organização, impede que se compreendam os padrões
de envio específicos das mulheres migrantes e contribui para a invisibilidade
estrutural de seu papel econômico. Mesmo nas poucas pesquisas nacionais
disponíveis essa variável, os dados são limitados e não permitem generalizações
globais. Esse déficit estatístico impede a formulação de políticas baseadas em
evidências e contribui para a persistência da invisibilidade econômica das mulheres
migrantes, especialmente no setor de cuidado.
O uso de canais informais de envio de remessas — como o sistema Hawala5,
popular entre mulheres no Oriente Médio e Sul da Ásia — reflete tanto a busca
por alternativas mais acessíveis quanto a exclusão financeira enfrentada por
trabalhadoras formais. Em outras regiões, como na África Subsaariana e em partes
5 Hawala é um sistema informal de transferência de valores, amplamente utilizado no Oriente Médio, Sul da
Ásia e entre comunidades migrantes, baseado em confiança e redes pessoais. As transações são realizadas sem
movimentações bancárias formais: o remetente entrega o valor a um agente local (hawaladar), que institui
outro agente, no país de destino, a pagar o valor ao destinatário. O sistema é popular por ser rápido, barato e
acessível, especialmente para pessoas sem conta bancária ou com status migratório irregular. Por não passar
por instituições financeiras oficiais, as remessas realizadas via hawala não entram nos registros estatísticos
nacionais ou internacionais.
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da América Latina, são comuns práticas como envio de dinheiro por terceiros
(motoristas, viajantes), transferências em espécie e o uso de redes comunitárias
locais, que também escapam aos sistemas formais de registro. Essas estratégias,
embora eficazes para as usuárias, tornam-se invisíveis para os mecanismos
tradicionais de mensuração econômica (UN Women 2020c).
Para evidenciar a dimensão oculta da contribuição feminina, pode-se recorrer
a estimativas baseadas em dados do Banco Mundial, cruzando o valor total
das remessas (World Bank Group 2023a; 2023b) com a proporção de migrantes
mulheres (UN [ONU] 2024) em países de destaque. A tabela a seguir apresenta
um panorama estimado:
Tabela 01 — Estimativa de remessas femininas e percentual do PIB
por remessas femininas
País Remessas totais
(USD Bi)
% Migrantes
Mulheres
Est. de Remessas
femininas (USD
Bi)
Est. % PIB
por Remessas
femininas
El Salvador 8,2 49,3% 4,0 11,9%
Cabo Verde 0,3 54,6% 0,2 6,8%
Ucrânia 14,9 58,9% 8,8 4,9%
Paquistão 34,9 29,7% 10,4 2,3%
Filipinas 39,1 56,9% 22,2 5,1%
Bangladesh 22,1 27,4% 6,1 1,4%
Nigéria 19,5 47,5% 9,3 2,6%
Egito 19,5 29,6% 5,8 1,4%
Índia 119,5 35,8% 42,8 1,2%
México 66,2 48,8% 32,3 1,8%
Brasil 4,9 55,6% 2,7 0,1%
Fonte: elaborada pela autora com base em dados do World Bank Group (2023a; 2023b) e UM [ONU] (2024).
A tabela 01 consiste em uma estimativa indireta do volume de remessas
enviadas por mulheres migrantes, construída a partir do cruzamento de suas bases
de dados principais: o volume total de remessas recebidas por país, segundo o
Banco Mundial (World Bank Group, 2023a; 2023b) e a proporção de mulheres
na população migrante de cada país, conforme os dados do Departamento de
Assuntos Econômicos e Sociais das Nações Unidas (UN [ONU] 2024). Para cada
país listado, calculou-se o valor estimado de remessas enviadas por mulheres,
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multiplicando-se o total de remessas pela porcentagem de mulheres entre os
migrantes residentes ou originários desse país6.
No entanto, essa estimativa possui limitações significativas. A começar pela
construção do indicador em si: os valores das remessas referem-se ao ano de
2023 e o valor referente ao número de migrantes mulheres refere-se ao ano de
2024, pois estes eram os dados disponíveis para consulta nas respectivas fontes.
Além disso, os registros oficiais de remessas incluem apenas aquelas enviadas
através de canais formais, como bancos, agências de transferência e correios.
Remessas enviadas por vias informais, como dinheiro levado pessoalmente pelos
migrantes ou por intermediários informais, não são contabilizadas nos sistemas
nacionais de contas. Estimativas indicam que, se tais transferências informais
e em espécie fossem consideradas, o volume total de remessas poderia dobrar
(UN-INSTRAW 2007)
Assim, a tabela apresentada não pretende oferecer números absolutos precisos,
mas sim sinalizar a magnitude e a relevância da contribuição feminina nas remessas
internacionais, reforçando o argumento central deste artigo: a invisibilidade
sistemática do trabalho de cuidado realizado por mulheres migrantes, e seu
papel fundamental na sustentação econômica de múltiplos países.
Além da invisibilidade do cuidado transnacional nas estatísticas econômicas,
há o fenômeno da desqualificação profissional sistemática das mulheres migrantes.
Ruiz e Donato (2024) mostram que mulheres altamente escolarizadas são
frequentemente empurradas para ocupações precárias no setor de cuidados, em
função de barreiras legais, racismo estrutural, estigmas de gênero e penalidades
associadas à maternidade. Esse processo é descrito na literatura como deskilling
— ou desqualificação (Boucher 2007, Man 2004)
. O paradoxo da desqualificação
revela que, embora estejam entre as maiores contribuidoras da economia global,
suas capacidades permanecem subutilizadas e invisibilizadas, reforçando a
divisão internacional, racial e sexual do trabalho. O conceito de ‘penalidade
do cuidado’ (Dowling 2021, Budig; Misra; Boeckmann 2012) reforça que as
desigualdades vividas por mulheres migrantes não se resumem à precarização
salarial, incluindo a desvalorização sistemática e a exclusão de proteção legal
6 Essa é uma aproximação estatística, que não distingue o setor de atividade das migrantes (ou seja, não
especifica se atuam no trabalho de cuidado ou em outros setores). O método parte do pressuposto de que a
distribuição das remessas segue, em linhas gerais, a composição de gênero da população migrante — o que
é uma simplificação, mas amplamente utilizada em estudos sobre migração e gênero quando dados setoriais
não estão disponíveis. Além disso, não considera diferenças de renda, capacidade de envio, status migratório
ou informalidade, que podem impactar significativamente o volume real de remessas femininas.
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devido à sua atribuição histórica do trabalho de cuidado às mulheres e a sua
naturalização como ‘vocação’, mesmo quando exigem habilidades complexas.
Para as migrantes, essa penalidade é agravada por condições de informalidade,
estigma social, limitação de mobilidade e apagamento de suas credenciais
profissionais, resultando em uma forma cumulativa de desigualdade estrutural,
afetiva e institucionalizada.
Apesar dessas estimativas revelarem a importância da contribuição feminina
para os fluxos internacionais de remessa, há um aspecto ainda mais significativo:
em nível global, as mulheres migrantes remetem valores totais equivalentes
aos dos homens, mas tendem a destinar uma proporção maior de sua renda às
remessas do que seus pares masculinos (UN Women 2020a). Mesmo inseridas
em setores mais precarizados e recebendo salários inferiores, elas demonstram
maior regularidade e volume relativo no envio de recursos (UN Women 2020a).
Esse padrão foi identificado, por exemplo, no estudo UN-INSTRAW (2007) sobre
mulheres migrantes na República Dominicana, que demonstra que, embora
homens enviem montantes maiores, as mulheres remetem uma proporção mais
significativa de seus ganhos, impulsionados pela força dos laços familiares e pela
função social das remessas como compensação econômica. O Banco Mundial
reforça essa observação, apontando que mulheres migrantes não apenas enviam
remessas com maior frequência, como também priorizam áreas consideradas
essenciais ao bem-estar familiar, revelando padrões de uso distintos e fortemente
associados ao cuidado (World Bank 2016).
O trabalho doméstico de mulheres migrantes representa, simultaneamente,
um serviço prestado ao país de destino e um recurso vital ao país de origem.
O envio de recursos monetários — que costuma ser valorizado nas estatísticas
— só é possível porque essas mulheres prestam cuidados a terceiros nos países
receptores, quase sempre em condições precárias e informalizadas. Esse trabalho
é duplamente invisibilizado: uma vez, por não ser reconhecido como produtivo;
outra vez, por ser socialmente desvalorizado e informalizado (Rai e Hoskyns 2016).
4.2 Remessas invisíveis e o trabalho emocional não mensurável
Embora as estimativas apresentadas permitam vislumbrar a magnitude da
contribuição feminina, permanece necessária a superação da visão economicista
que associa o valor das remessas exclusivamente ao montante enviado, e não ao
seu impacto social e à lógica relacional do cuidado transnacional. Com efeito,
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além do trabalho físico prestado nos países de destino, as mulheres migrantes
também transferem cuidado, suporte emocional e valores afetivos, que permanecem
invisíveis aos indicadores econômicos. Isso se dá não apenas na direção dos
locais de origem para os países de trabalho, como também, e fundamentalmente
para o conceito de remessas invisíveis, dos países de trabalho de volta para os
países de origem das trabalhadoras migrantes.
A noção de ‘trabalho emocional’ de Hochschild (1983) é uma antecessora
conceitual desse debate. Com esse conceito, a autora mostrou que determinados
empregos — especialmente femininos — demandam a gestão ativa dos próprios
sentimentos para induzir estados emocionais desejáveis em outras pessoas. No
caso das trabalhadoras domésticas e cuidadoras migrantes, isso significa sorrir,
consolar, demonstrar paciência e afeto — mesmo sob exaustão, injustiça ou
sentindo saudades. Esse afeto performado passa a ser uma mercadoria invisível,
parte central do serviço prestado, mas raramente reconhecida como trabalho.
Essa perspectiva ajuda a compreender o que a autora posteriormente denominaria
‘mais-valia emocional’ nas cadeias globais de cuidado (Hochschild 2000), em que
mulheres migrantes exportam cuidado e afeto como mercadorias invisibilizadas,
permitindo a reprodução social de famílias no Norte global ao custo do esgotamento
físico e psíquico das trabalhadoras. O caso das Filipinas ilustra esse fenômeno:
políticas estatais incentivam ativamente a exportação de mão de obra feminina,
especialmente para o setor de cuidados, e estima-se que uma parte substancial
das remessas do país provém de mulheres atuando como babás, cuidadoras e
trabalhadoras domésticas (ILO [OIT] 2016, UN Women 2020a).
Mais importante para o conceito de remessas invisíveis, entretanto, é o
argumento de Bryceson (2022) sobre como o envio de remessas financeiras—
fruto de trabalho de cuidado e emocional—é apenas uma das formas pelas
quais as famílias transnacionais mantêm sua coesão. A autora argumenta que
os fluxos de remessas não apenas sustentam materialmente comunidades, mas
também mantêm vínculos afetivos, simbólicos e de cuidado, propondo o conceito
de ‘care circulation’ — circulação do cuidado — para descrever os arranjos
contínuos e assimétricos de cuidado entre migrantes e familiares deixados para
trás, especialmente mulheres. Em contextos marcados pela retração do Estado e
pela precarização global do trabalho, são essas redes de cuidado que garantem a
reprodução da vida à distância. Ademais, expectativas familiares, especialmente em
contextos africanos e asiáticos, criam pressões significativas para que as mulheres
sustentem, à distância, as necessidades de seus entes queridos — mesmo em
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situações de precariedade e sacrifício pessoal. Essa dimensão do cuidado amplia a
noção de remessa: não é apenas dinheiro que atravessa fronteiras, mas também o
afeto, em sua dimensão econômica e não só econômica—leia-se, não mensurável.
Tais formas de contribuição, invisíveis às métricas econômicas convencionais,
revelam que o cuidado transnacional consiste em uma infraestrutura relacional
da economia global contemporânea.
A própria configuração das famílias transnacionais, segundo Bryceson (2022),
revela que a migração feminina não desorganiza o cuidado, mas o redistribui em
circuitos transfronteiriços de suporte mútuo. Nesses arranjos, as remessas não
são apenas valores monetários, mas parte de uma infraestrutura relacional que
permite a continuidade da vida em meio à ruptura espacial imposta pela migração.
Segundo a UN Women (2017), essas ‘remessas afetivas’ são parte integral da
sustentabilidade das famílias transnacionais e devem ser reconhecidas como formas
legítimas de contribuição econômica. O policy brief da UN Women (2020a) reforça
esse argumento ao demonstrar que essas mulheres desempenham um papel ativo
na organização da vida familiar à distância — incluindo decisões sobre educação,
bem-estar e manutenção de vínculos comunitários. Tais práticas constituem
formas de ‘remessas sociais’ que moldam relações de gênero, valores e estruturas
familiares nos países de origem, ainda que permaneçam não mensuradas pelas
métricas convencionais. A ausência de sua contabilização revela uma limitação
das métricas tradicionais, que continuam a medir produtividade exclusivamente
em termos monetários e formais.
A migração feminina, portanto, não rompe os laços de cuidado, mas os
ressignifica em termos transnacionais. As chamadas ‘mães transnacionais’
mantêm vínculos com seus filhos/as e familiares por meio da mediação de
outras mulheres que assumem, localmente, os papéis deixados por aquelas que
migraram. Como mostram González e Silva (2025), nas comunidades cabo-
verdianas, por exemplo, o suporte emocional e logístico das avós, cunhadas e
noras que permanecem no país de origem sustenta não apenas o cuidado, mas
também a própria viabilidade das migrações. Essas mulheres são o elo silencioso
e sacrificial da cadeia, oferecendo sua mobilidade como moeda de troca para
que outras possam migrar. Por sua vez, a análise de Lam e Yeoh (2018) sobre
famílias filipinas e indonésias demonstra que mulheres migrantes continuam
exercendo, à distância, funções maternas por meio de remessas financeiras,
instruções pedagógicas e apoio emocional. Mesmo ausentes fisicamente, elas
permanecem inseridas no cuidado cotidiano, contribuindo diretamente para
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o bem-estar dos filhos. Essa forma de ‘maternidade transnacional’ redefine o
papel da mulher como cuidadora e provedora ao mesmo tempo, desafiando os
moldes tradicionais da divisão sexual do trabalho, mas também revelando o peso
afetivo e logístico que recai sobre essas mulheres como principais garantidoras
da sobrevivência familiar. Como assinalam González e Silva (2025), esse arranjo
não é neutro, mas segue as lógicas patriarcais e de hierarquia de gênero no grupo
familiar, que espera das mulheres — especialmente noras e avós — a abdicação
de sua mobilidade.
Assim, o processo migratório e as consequentes remessas invisíveis
reorganizam as relações de gênero, gerando simultaneamente opressão e
agência. Se, por um lado, as migrantes enfrentam discriminação, dupla jornada
e vulnerabilidade legal, por outro, ganham autonomia econômica, desafiam
papéis tradicionais e redesenham suas trajetórias familiares (Assis 2007, Parreñas
2015, Lam; Yeoh 2018) . Contudo, a agência feminina ocorre dentro de limites
muito específicos, impostos pela interseccionalidade do sistema de opressões: ser
mulher, migrante, racializada e pobre significa estar situada nas camadas mais
baixas da estrutura social global, sujeita a exploração e violência. Como observa
Dowling (2021), essa agência é relacional e situada, frequentemente articulada
em redes de cuidado sustentadas pelas próprias migrantes, ainda que limitadas
pelas condições materiais e simbólicas do trabalho precário.
Propõe-se aqui, portanto, uma reconceituação crítica do trabalho de cuidado
como uma forma de remessa invisível — relacional, afetiva e econômica — que
atravessa fronteiras e sustenta a reprodução social de populações inteiras. Essas
remessas não monetárias incluem desde o suporte psicológico e a supervisão
remota de filhos/as, até a gestão de vínculos familiares, organização da vida
cotidiana e manutenção de redes de solidariedade transnacional. Assim como as
remessas financeiras sustentam economias nacionais, essas formas intangíveis
de cuidado sustentam famílias, subjetividades e vínculos comunitários que são
igualmente centrais ao funcionamento da vida social.
Apesar de sua potência analítica, o conceito de remessas invisíveis também
carrega limites. Existe o risco de romantizar a posição das mulheres migrantes,
reforçando sua imagem como sujeitos sacrificiais e altruístas. Além disso, a
diversidade de contextos socioeconômicos e culturais impõe variações significativas
na experiência do cuidado transnacional. Por fim, há dificuldade metodológica
em mensurar empiricamente essas formas de contribuição afetiva e reprodutiva,
o que demanda abordagens qualitativas sensíveis e interdisciplinares.
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Todavia, reconhecer o trabalho reprodutivo como remessa não é apenas
um gesto simbólico: trata-se de um ato político, que desafia os parâmetros que
definem o que conta como ‘valor’ ou ‘trabalho’ na economia global. Ao fazer
isso, amplia-se o entendimento de economia, incorporando os laços, afetos e
cuidados que sustentam a vida em sua forma mais elementar — e que, até hoje,
permanecem ausentes dos centros decisórios do sistema internacional. Mais do
que uma proposta teórica, reconhecer o trabalho reprodutivo como remessa tem
implicações políticas e jurídicas. Significa, por exemplo, reivindicar o direito à
compensação e à seguridade social para trabalhadoras domésticas migrantes,
garantir licença maternidade transnacional e desenhar políticas públicas que
considerem a dimensão afetiva e emocional do trabalho de cuidado como parte
integral das economias ao demonstrar os custos subjetivos do afastamento
familiar e da exploração no contexto migratório (Rai, Hoskyns e Thomas 2013).
Esse reconhecimento exige uma transformação dos modelos de mensuração
econômica, das políticas públicas e das narrativas sobre migração e
desenvolvimento (Rai e Hoskyns 2016, UN Women 2020a). A análise de Dowling
(2021) sobre o entrelaçamento entre financeirização e reprodução social oferece
uma chave explicativa para compreender a invisibilização das remessas femininas.
Ao desinvestir em serviços públicos, o capital transfere o ônus da reprodução
social para as famílias — em especial para as mulheres migrantes, que exportam
cuidado enquanto subsidiam seus países de origem com recursos afetivos e
monetários. Esse rearranjo global, longe de ser neutro, estrutura a divisão sexual
e racial do trabalho e revela como a reprodução da vida permanece subordinada
à lógica da acumulação. A ausência de dados sobre o tipo de ocupação nas
estatísticas de remessas reforça o que Waring (2004) definiu como a ‘inutilidade
inventada’ — o apagamento deliberado de atividades femininas do campo da
economia, com consequências políticas e sociais significativas. Para transformar
o que hoje é invisível em pauta política concreta, torna-se urgente a adoção de
metodologias que assegurem visibilidade estatística, como pesquisas de uso do
tempo, contas satélites de cuidado e a desagregação por ocupação e gênero nas
estatísticas de migração e remessas. Tais políticas são passos fundamentais para
revelar a verdadeira dimensão do trabalho que sustenta a economia global —
um trabalho frequentemente feminino, racializado e realizado à margem dos
sistemas formais.
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5 Conclusão
Este artigo argumentou que o trabalho reprodutivo transnacional realizado
por mulheres migrantes — frequentemente classificado como não produtivo
pelas métricas econômicas tradicionais — deve ser compreendido como uma
forma de remessa invisível. Ao longo do texto, argumentou-se que esse cuidado,
em suas dimensões materiais e emocionais, constitui um pilar invisibilizado da
economia global contemporânea.
No decorrer da análise, ficou evidente que as cadeias globais de cuidado são
uma engrenagem fundamental do capitalismo contemporâneo, operando através da
exportação de força de trabalho feminina para países centrais, ao custo da depleção
física, emocional e afetiva das mulheres que migram e das que permanecem.
O cruzamento entre dados de remessas e a composição de gênero da migração
indicou que as mulheres, embora inseridas majoritariamente em ocupações
precárias e com salários mais baixos, tendem a remeter, proporcionalmente,
mais recursos do que os homens, configurando uma dinâmica de contribuição
econômica frequentemente ignorada. Estudos recentes, como o de Le Goff (2016),
reforçam essa conclusão ao demonstrar que as remessas femininas são mais
frequentes, regulares e motivadas por padrões altruístas, mesmo sob condição
de vulnerabilidade estrutural. Tais padrões não apenas confirmam a centralidade
das mulheres migrantes no sustento das famílias, como também evidenciam
os limites das métricas convencionais em capturar a complexidade do cuidado
transnacional.
A análise comparativa de dados domiciliares em países como Burkina Faso,
Uganda, Nepal e Bangladesh (UN Women 2020a ; 2020b; 2020c) revelou que
mulheres migrantes, embora inseridas em ocupações mais precárias e com salários
mais baixos, tendem a enviar uma proporção maior de sua renda do que os
homens. Estudos como o de Le Goff (2016) e U N-INSTRAW (2007) confirmam
esse padrão: as remessas femininas são mais frequentes, regulares e voltadas
ao bem-estar coletivo — como saúde, educação e alimentação. Esses dados
reforçam que a motivação do envio vai além da função econômica, constituindo
uma extensão transnacional do cuidado e um esforço sacrificial frequentemente
ignorado nas estatísticas tradicionais.
O debate hegemônico sobre remessas, ao se ancorar exclusivamente em
fluxos monetários, desconsidera outras dimensões fundamentais, como o cuidado
e o afeto transnacional. A proposta de reconceituar o trabalho doméstico como
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remessa amplia o horizonte analítico e revela a necessidade de transformar os
parâmetros com que o sistema internacional contabiliza e valoriza o trabalho
de cuidado.
Reconhecer o cuidado como remessa é também um ato de resistência. Práticas
organizadas por movimentos feministas e antirracistas mostram que o cuidado
pode deixar de ser um vetor exploração e tornar-se a base de novas formas de
sociabilidade baseadas em solidariedade, reciprocidade e justiça. Para transformar
essa realidade, torna-se urgente: (1) implementar contas satélites de cuidado
e pesquisas de uso do tempo; (2) desagregar por ocupação e gênero os dados
sobre remessas e migração; (3) garantir direitos trabalhistas, previdenciários e
de mobilidade a trabalhadoras migrantes; e (4) criar políticas que reconheçam
o valor afetivo, relacional e econômico do cuidado.
Tais medidas são fundamentais para romper com a invisibilidade estrutural
e construir uma economia global mais justa, ética e sustentável, onde o trabalho
reprodutivo — majoritariamente feminino e racializado — deixe de ser invisível
e passe a ocupar seu lugar central nas decisões econômicas.
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