
Georgia Paula Martins Faust
Rev. Carta Inter., Belo Horizonte, v. 20, n. 3, e1595, 2025
15-25
multiplicando-se o total de remessas pela porcentagem de mulheres entre os
migrantes residentes ou originários desse país6.
No entanto, essa estimativa possui limitações significativas. A começar pela
construção do indicador em si: os valores das remessas referem-se ao ano de
2023 e o valor referente ao número de migrantes mulheres refere-se ao ano de
2024, pois estes eram os dados disponíveis para consulta nas respectivas fontes.
Além disso, os registros oficiais de remessas incluem apenas aquelas enviadas
através de canais formais, como bancos, agências de transferência e correios.
Remessas enviadas por vias informais, como dinheiro levado pessoalmente pelos
migrantes ou por intermediários informais, não são contabilizadas nos sistemas
nacionais de contas. Estimativas indicam que, se tais transferências informais
e em espécie fossem consideradas, o volume total de remessas poderia dobrar
(UN-INSTRAW 2007)
Assim, a tabela apresentada não pretende oferecer números absolutos precisos,
mas sim sinalizar a magnitude e a relevância da contribuição feminina nas remessas
internacionais, reforçando o argumento central deste artigo: a invisibilidade
sistemática do trabalho de cuidado realizado por mulheres migrantes, e seu
papel fundamental na sustentação econômica de múltiplos países.
Além da invisibilidade do cuidado transnacional nas estatísticas econômicas,
há o fenômeno da desqualificação profissional sistemática das mulheres migrantes.
Ruiz e Donato (2024) mostram que mulheres altamente escolarizadas são
frequentemente empurradas para ocupações precárias no setor de cuidados, em
função de barreiras legais, racismo estrutural, estigmas de gênero e penalidades
associadas à maternidade. Esse processo é descrito na literatura como deskilling
— ou desqualificação (Boucher 2007, Man 2004)
. O paradoxo da desqualificação
revela que, embora estejam entre as maiores contribuidoras da economia global,
suas capacidades permanecem subutilizadas e invisibilizadas, reforçando a
divisão internacional, racial e sexual do trabalho. O conceito de ‘penalidade
do cuidado’ (Dowling 2021, Budig; Misra; Boeckmann 2012) reforça que as
desigualdades vividas por mulheres migrantes não se resumem à precarização
salarial, incluindo a desvalorização sistemática e a exclusão de proteção legal
6 Essa é uma aproximação estatística, que não distingue o setor de atividade das migrantes (ou seja, não
especifica se atuam no trabalho de cuidado ou em outros setores). O método parte do pressuposto de que a
distribuição das remessas segue, em linhas gerais, a composição de gênero da população migrante — o que
é uma simplificação, mas amplamente utilizada em estudos sobre migração e gênero quando dados setoriais
não estão disponíveis. Além disso, não considera diferenças de renda, capacidade de envio, status migratório
ou informalidade, que podem impactar significativamente o volume real de remessas femininas.