
José Alejandro Sebastian Barrios Díaz
Rev. Carta Inter., Belo Horizonte, v. 20, n. 2, e1614, 2025
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brasileira sobre as prioridades do governo de Moçambique contribuíram para
que esse projeto de cooperação e comércio se desenvolvesse de forma cautelosa
e gradual. Muitas décadas depois, esse relacionamento amadurecido ganhou
novo fôlego: entre 2011 e 2016, Moçambique tornou-se efetivamente o principal
destino da cooperação internacional do Brasil (Barrios Díaz 2023). Nesse período,
a cooperação brasileira abrangeu áreas tão diversas quanto desenvolvimento
urbano, agricultura (cotonicultura, horticultura, irrigação, gado, pesquisa agrícola),
segurança alimentar, saúde pública (bancos de leite humano, saúde materna,
telemedicina, gestão de tuberculose, formação de recursos humanos em saúde,
instalação de fábrica de antirretrovirais), ciência e tecnologia, educação e, ainda,
no âmbito da cooperação humanitária, doações de arroz e feijão.
No âmbito da cooperação, já em 1976 iniciaram-se diálogos sobre possíveis
intercâmbios nas áreas de saúde e educação, com interesse expresso por
Moçambique em materiais de saúde, documentos técnicos, seminários e cursos
oferecidos no Brasil. Havia inclusive planos para o envio de professores brasileiros
e especialistas, como psiquiatras, embora questões formais e restrições burocráticas
tenham limitado essas iniciativas naquele momento (Arquivo Histórico do Itamaraty
1976b).
O discurso inaugural do embaixador Ronald Small Moraes, em agosto de
1976, traduziu a intenção brasileira de uma aproximação solidária, baseada
no culturalismo diplomático do Brasil. Moraes destacou os “sentimentos de
fraternidade do povo brasileiro para com os povos da África”, fundamentados
em “afinidades históricas e culturais”, que possibilitariam um diálogo em pé de
igualdade (Arquivo Histórico do Itamaraty 1976b). Contudo, essa “igualdade”
era essencialmente um princípio jurídico estatal brasileiro baseado no conceito
de soberania, o que contrastava com a realidade das relações desiguais entre os
países, tanto então quanto atualmente.
A solidariedade brasileira, mais orientada pela política externa do que pelo
altruísmo ou conhecimento aprofundado do continente africano, utilizou as
“afinidades históricas e culturais” como ferramentas políticas e simbólicas para
estreitar laços (Saraiva 1993). Esses vínculos, desde a independência do Brasil,
foram reinterpretados e instrumentalizados pela diplomacia para sustentar uma
relação que, embora marcada por diferenças e assimetrias, buscava construir
um espaço de interlocução com Moçambique.
É importante destacar que, embora as perspectivas nacionais de Brasil e
Moçambique fossem diferentes, considerando que o Brasil desejava a abertura