
O Trágico na Política Internacional: Insuficiências da Abordagem à Tragédia no Realismo [...]
Rev. Carta Inter., Belo Horizonte, v. 21, n. 1, e1628, 2026
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A tragédia entra nesse modelo teórico de uma forma também simplificada.
Para Mearsheimer, o problema do trágico não está na dúvida, na ambiguidade,
no paradoxo, na irracionalidade, na impulsividade, no voluntarismo ou na
intencionalidade dos protagonistas da trama, mas está na força externa dos
imperativos sistêmicos. Como observado anteriormente, são os imperativos
sistêmicos que fatalmente condena o mundo à tragédia, não os dilemas éticos,
as falhas ou as eventuais condutas irracionais. Isso indica uma perspectiva
da tragédia que não dá conta das relações complexas e contraditórias que se
estabelecem entre a ordem externa de onde emana tudo aquilo que não se
controla, que é obra do acaso — associada, assim, à ideia de destino —, e a
ordem cívico-política da polis, de onde emerge o ator político complexo, dotado
de agência, responsável pelos seus atos e decisões.
Édipo, como vimos na seção anterior, é o arquétipo desse sujeito complexo
e ambíguo, situado entre ordens ético-políticas contraditórias, que luta contra
o destino para afirmar a sua liberdade de fazer escolhas e agir. Quando se
mergulha profundamente na leitura da tragédia de Sófocles, observando como
Édipo se constitui como um enigma indecifrável e um agente que se lança
apaixonadamente para realizar a sua vontade, consegue-se perceber que o agente
racional estratégico que protagoniza a tragédia de Mearsheimer, afinal de contas,
tem pouco ou nada de trágico — falta-lhe a complexidade, a ambiguidade, a
paixão e o voluntarismo característicos do herói trágico.
O próprio ato de decisão, central no problema colocado pela tragédia, assume
um perfil anti-trágico em Mearsheimer: abstraído dentro de um processo técnico-
burocrático, condicionado por forças externas, o ato de decisão é racionalizado
e, em consequência, esvaziado de sua tragicidade. Preso na “gaiola de ferro” dos
imperativos sistêmicos (Mearsheimer 2001, 12), o agente racional estratégico não
faz escolhas trágicas, pois suas decisões e ações são objetivamente pautadas por
uma prescrição que já lhe diz, por antecipação, como deve agir. Definido como
homo theoreticus, deve agir como um “bom realista ofensivo” (Mearsheimer
2001, 16) — “bom” não em um sentido ético, mas no sentido de se ajustar ao
que prescreve a teoria. O protagonista da tragédia escrita por Mearsheimer — a
grande potência — é previsível e sabe que deve seguir a prescrição: acumular todo
o poder que puder para tornar-se hegemônico e, assim, garantir a sua segurança,
mesmo que para isso precise ir à guerra. É racional que ele aja assim. Isso mostra
que a catástrofe trágica, dentro da lógica do realismo ofensivo, resulta de um
comportamento racional, não de um comportamento irracional, apaixonado e