
Desenvolvimento Desigual e Combinado e a crítica do internalismo nas Relações Internacionais [...]
Rev. Carta Inter., Belo Horizonte, v. 21, n. 1, e1636, 2026
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ocultar as estruturas de poder que as teorizações hegemônicas das RI constroem e
sustentam, consequentemente reforçando o status quo e invisibilizando desigualdades
e discriminações do mundo moderno. Percebe-se como o eurocentrismo da
hegemônica definição do internacional parte de uma definição internalista, isto
é, como a história interna, particular, da Europa é universalizada (Sabaratnam
2020). O Tratado de Vestfália (1648) é assim tomado como o momento fundador
do internacional de facto, entendido como um ambiente anárquico e exterior ao
“doméstico”, em que Estados soberanos racionais estão em pé de igualdade formal
e preocupados apenas em garantir sua sobrevivência (Krishna 2018). Nota-se
como essa ambientação também parte de um internalismo, sendo, portanto, uma
segunda dimensão desse procedimento vista em perspectivas hegemônicas, além do
eurocentrismo. Ambos se combinam de modo a ocultar a história extraeuropeia e
problemas ditos domésticos, silenciando exatamente aquilo sob o que as estruturas
vestfalianas foram fundadas e daí se construíram: a colonização das Américas, o
estabelecimento de uma superioridade racial branca e europeia frente aos indígenas
e negros, e diante disso, a escravização e genocídio destes povos (Santos Filho,
2019, Silva 2021). É a partir daí, também, que são legitimados os “verdadeiros”
temas de estudo das RI: guerras entre potências, diplomacia, cooperação, segurança,
política externa; ao passo em que são rejeitadas questões ditas domésticas como
o racismo, opressões de gênero e desigualdade social.
Apesar desse potencial crítico, algumas obras apontam que a teorização
de Rosenberg ainda reproduz problemas das teorizações hegemônicas das RI
(Blaney e Tickner 2017; Blaney e Inayatullah 2016; Shilliam 2009; Tickner 2023).
Ao entenderem que a formulação do DDC seria muito básica — por não ser
capaz de caracterizar o internacional além de oferecer um entendimento não
internalista dele — argumentam que ela resguardaria resíduos eurocêntricos e
coloniais.
Em diálogo com essas questões, este artigo propõe uma apropriação periférica6
do projeto teórico de Rosenberg.7 Assim, enquanto apresenta a teorização
6 Por “apropriação periférica”, quer-se dizer o movimento de apreensão teórica das formulações em questão
baseado em vozes situadas em posições subalternas e oprimidas na modernidade e no capitalismo global
que denunciam processos de dominação e discriminação subjacentes a ambos, e que, ao mesmo tempo,
buscam construir novos modos de enxergar e estar no mundo ou cultivar outros já existentes. Exemplos
(não exaustivos) nesse sentido seriam as literaturas situadas dentre as chamadas abordagens decoloniais,
pós-coloniais e a vertente marxista da Teoria da Dependência.
7 Ainda que Rosenberg não seja o único autor que fale sobre o DDC (e mesmo multiplicidade) dentre as RI, foi
ele quem iniciou e levou adiante esse esforço na área, conferindo-o um status de centralidade que justifica
o foco deste artigo em sua obra. A segunda seção esclarece e contextualiza essa centralidade nas RI.