O conceito de Ataque Global Imediato: premissas equivocadas, consequências perigosas

  • Guilherme Simionato dos Santos Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS)
  • Marco Cepik Universidade Federal do Rio Grande do Sul - UFRGS
Palavras-chave: Segurança Internacional, Estudos Estratégicos, Projeção de Força.

Resumo

O artigo analisa criticamente o conceito estadunidense de Ataque Convencional Global Imediato (Conventional Prompt Global Strike – CPGS), bem como suas implicações para a segurança internacional. Trata-se de iniciativas que buscam desenvolver a capacidade de atacar – de forma convencional, precisa e sem depender de bases avançadas – alvos localizados a longas distâncias (pelo menos 1.500 km) em um curto período de tempo (velocidades acima de Mach 5). O conceito tem duas premissas equivocadas. A primeira corresponde ao que Patrick Porter (2015) chamou de “globalismo” tático, ou seja, a crença de que ataques convencionais em escala global não seriam mais constrangidos pela distância. A segunda é o que James Acton (2013) chamou de “mito da bala de prata”, a busca por uma inovação capaz, por si só, de reverter tendências estratégicas e realidades políticas. Os projetos ligados ao conceito CPGS enfrentam dificuldades técnicas, orçamentárias e políticas. Caso sejam bem-sucedidos, suas consequências são perigosas. Em primeiro lugar, estimulam a competição e a emulação de soluções preemptivas com tempo operacional acelerado. Em segundo lugar, como o CPGS ameaça a capacidade de segundo ataque (retaliação) nuclear das outras grandes potências, sua implementação aumenta a instabilidade política mundial e os riscos de ultrapassagem não acidental do limiar nuclear. 

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Biografia do Autor

Guilherme Simionato dos Santos, Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS)
Mestrando no Programa de Pós-Graduação em Estudos Estratégicos Internacionais (PPGEEI/UFRGS)

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Publicado
30-12-2017
Como Citar
Simionato dos Santos, G., & Cepik, M. (2017). O conceito de Ataque Global Imediato: premissas equivocadas, consequências perigosas. Carta Internacional, 12(3), 5 - 29. https://doi.org/10.21530/ci.v12n3.2017.684
Seção
Artigos